Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador família. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Razões por que acredito que Renato Vargens não entendeu Caio Fábio na questão do sexo antes do casamento


Em novembro/2013 começou uma polêmica na internet com repercussões nas redes sociais acerca do tema sexo antes do casamento.

Tudo começou com um pequeno vídeo, com menos de 6 minutos, onde o Pastor Caio Fábio responde a um e-mail de um jovem que diz que depois de um ano de namoro passou a fazer sexo com a namorada e pergunta, “isso é pecado”?

No vídeo Caio, sempre provocador e direto, faz algumas afirmações que despertaram reações as mais contraditórias. Há os que entendem que ele estressa o conceito da Graça de Cristo e torna-a banal. Outros que ele recupera o seu significado como numa nova reforma. Muitas acusações e julgamentos são lançados ao Pastor Caio, tido como relativista, barateador da Graça, falso profeta, réu do inferno, ensinado por demônios, etc.

Em resposta ao vídeo, o Pastor Renato Vargens escreveu no seu blog um texto. E nesse texto chama o Dr. Augustus Nicodemos, um notável teólogo calvinista contemporâneo, em favor de seus argumentos, transcrevendo um de seus textos sobre o assunto.

Como crente, filho de pastor, nascido dentro de um seminário há 57 anos, tendo vivido os bastidores eclesiásticos a vida toda, professor de jovens na igreja que frequento, me sinto desafiado a comentar. 
Tentarei faze-lo sem ferir suscetibilidades e num clima de respeito e honestidade. Conseguirei?  Correrei o risco. Julgue por si.

Farei meus comentários ponto a ponto, em vermelho:

Aqui o link para o post do Pr. Renato Vargens, que por sua vez tem um link para o vídeo em questão.

O post do Pr. Renato Vargens tem por título:

Sexo antes do casamento: razões por que acredito que Caio Fábio esteja errado

Primeiramente parabéns ao Pr. Vargens pelo título: “razões por que acredito que Caio Fábio esteja errado” parte do respeito como pressuposto do diálogo e da não dogmatização de nossos pontos de vistas. Porém, os meus parabéns infelizmente vão limitar-se ao título, por enquanto, por que me pareceu que Vargens foi, no mínimo, tendencioso em sua interpretação do que Caio disse.

O pastor Caio Fábio afirmou a pouco (veja o vídeo abaixo) que não vê nenhum problema no relacionamento sexual entre duas pessoas que se gostam. 

Não, Caio Fábio não disse em nenhum momento que não vê nenhum problema no relacionamento sexual entre duas pessoas que se gostam. Vejam o vídeo.

Na opinião de Caio desde que não haja defraudação na relação, não há problema de que os amantes se envolvam sexualmente. 

Outra vez, não, Caio Fábio não disse isso. Ao contrário, ele alertou o namorado apressado para o risco de defraudação e lançou sobre ele toda a responsabilidade disso. Caio recusou-se a chancelar o “amor” declarado do jovem como “validador” da relação sexual e jogou inteiramente sobre eles a responsabilidade pelo verdadeiro amor, que deve vincular profunda e conscientemente uma relação.  Vejam o vídeo.

Caio também disse que ele, à luz do evangelho, não pode se contrapor àqueles que agem desta forma, mesmo porque, não dá pra se convencionar o que seja casamento.

Mais uma vez, Caio não disse isso. Caio está respondendo àquela carta daquele rapaz. Ele não está fazendo teologia nem defendendo tese. Há uma sutil distorção aqui. Ele não disse que não pode “se contrapor”, a qualquer um que resolva ter sexo antes do casamento. Disse apenas uma verdade elementar: ninguém tem condição de julgar as intenções do coração humano. E afinal, quem pode dizer que qualquer sexo será sempre fornicação? “Eu não sou Deus pra saber quais são as verdades de vocês”, disse Caio. Esse é um ponto nevrálgico, porque vai na essência da coisa: julgar consciências é uma tarefa impossível para qualquer ser humano. O Código de Disciplina da IPB (igreja à qual pertenço), logo no seu Artigo 1º reconhece esse princípio: “Art.1º - A Igreja reconhece o foro íntimo da consciência, que escapa à sua jurisdição, e da qual só Deus é Juiz; mas reconhece também o foro externo que está sujeito à sua vigilância e observação.”. Então, todo juízo humano é exterior e, portanto, precário. Pode ser que aquele jovem esteja apenas fornicando, sim. Mas pode ser que não. Quem vai dizer com certeza? Quem pode julgar suas intenções profundas, o grau de seu amor e de sua fidelidade? Um papel num cartório garante alguma coisa? Fosse assim nenhum casamento civil-religioso se desfaria. Quem pode dizer se um casal que transou antes da validação civil será infiel? Ou fiel pra sempre? Caio está, a meu ver, corretíssimo: não dá pra validar um casamento com base em qualquer outra coisa que não seja o imponderável amor que reside no foro da consciência e do coração. Ponto. A igreja não tem nem nunca pode ter o poder de submeter a consciência, pois esta lhe é inacessível. Jesus tem esse poder. E a Ele ninguém poderá enganar, em hipótese alguma. Nem esse jovem e nem outro qualquer. Em vez de responder simploriamente à pergunta daquele jovem “Caio, eu estou em pecado?”, Caio devolve a pergunta: “Você está?”.  Me parece que foi nessa direção a argumentação de Caio.  

Pois bem, diante do exposto gostaria de enumerar 04 motivos porque considero que o ensino de Caio Fábio esteja equivocado:

(Fiz questão de transcrever todos os textos citados para melhor análise dos leitores)

1- Em 1 Coríntios 7:8,9, Paulo orienta a igreja dizendo que é melhor para o solteiro se case do que viver abrasado. 

Porque quereria que todos os homens fossem como eu mesmo; mas cada um tem de Deus o seu próprio dom, um de uma maneira e outro de outra.
Digo, porém, aos solteiros e às viúvas, que lhes é bom se ficarem como eu.
Mas, se não podem conter-se, casem-se. Porque é melhor casar do que abrasar-se.
1 Coríntios 7:7-9

Ensino corretíssimo. Casar é o projeto de Deus para o homem. Mas, por acaso, no vídeo, Caio está ensinando o contrário? Está ensinando a libertinagem, a fornicação, o sexo sem compromisso, o sexo como resposta ao abrasamento? Melhor transar do que viver abrasado? Caio apenas diz que não pode afirmar que a ausência dos validadores sociais torna por si só pecaminoso o sexo entre dois jovens que supostamente se amam.  Tem mais variáveis nessa equação.

2- A Bíblia não permite relações sexuais fora do matrimônio (1 Coríntios 6.18-7.2) e condena a imoralidade como um pecado que afronta a santidade do Senhor.

Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. 1 Coríntios 6:18
Ora, quanto às coisas que me escrevestes, bom seria que o homem não tocasse em mulher;
Mas, por causa da fornicação, cada um tenha a sua própria mulher, e cada uma tenha o seu próprio marido 1 Coríntios 7:1-2

Se fosse bom que o homem não tocasse em mulher Deus não a teria feito e dito que era muito bom. Também o casamento não é um remédio contra a fornicação e se fosse assim seria uma tragédia. O casamento monogâmico é o propósito santo de Deus para a humanidade, seja ela cristã ou não.
Certamente o ensino paulino aqui tem um contexto e já li muitas explicações teológicas sobre uma época de perseguições religiosas graves em que as normalidades da vida estariam comprometidas. A meu ver esses textos não servem para criticar o que Caio disse em seu vídeo, como pretende Vargens, porque Caio, em nenhum momento os contradiz. Caio não sancionou uma suposta fornicação daquele jovem nem a de qualquer outro. Pelo contrário, ele lança o repto e deixa a questão no ar, para que o próprio jovem se pergunte se não estaria apenas fornicando. “Em momento algum a defraude”, afirma Caio.

3-  Deus instituiu o casamento para a nossa felicidade, plenitude e segurança, e que este deve ser honrado por todos. Na Bíblia existem inúmeros versículos que declaram o sexo antes do casamento como sendo um pecado (Atos 15:20, 1 Coríntios 5:1; 6:13, 18; 10:8, 2 Coríntios 12:21, Gálatas 5:19, Efésios 5:3; Colossenses 3:5, 1 Tessalonicenses 4:3; Judas 7).

Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da fornicação, do que é sufocado e do sangue. Atos 15:20

Geralmente se ouve que há entre vós fornicação, e fornicação tal, que nem ainda entre os gentios se nomeia, como é haver quem possua a mulher de seu pai. 1 Coríntios 5:1

Os alimentos são para o estômago e o estômago para os alimentos; Deus, porém, aniquilará tanto um como os outros. Mas o corpo não é para a fornicação, senão para o Senhor, e o Senhor para o corpo. 1 Coríntios 6:13

Fugi da fornicação. Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que fornica peca contra o seu próprio corpo. 1 Coríntios 6:18

E não nos forniquemos, como alguns deles fizeram; e caíram num dia vinte e três mil
1 Coríntios 10:8

Que, quando for outra vez, o meu Deus me humilhe para convosco, e chore por muitos daqueles que dantes pecaram, e não se arrependeram da imundícia, e fornicação, e desonestidade que cometeram. 2 Coríntios 12:21

Todos os textos citados tratam de fornicação. O que todos estes textos afirmam não é, como diz Vargens, que “sexo antes do casamento é pecado” e sim que fornicação é pecado. O que Caio diz em seu vídeo é que não é possível afirmar que qualquer jovem que tenha sexo antes dos validadores sociais do casamento está simplesmente fornicando. É dura essa afirmação. Fere o poder da igreja, dos pastores, dos líderes.

“Que absurdo! Rompeu-se a corda! Agora a juventude cristã está liberada pra a libertinagem, para o desregramento, porque vai ficar a critério da consciência de cada um. Não vale mais o que a Bíblia ensina. A consciência, pecadora, fraca, até mesmo cauterizada, passou a ser o critério da verdade. Caímos no relativismo. A igreja está perdendo o poder de regular os comportamentos. Os pastores não podem mais admoestar a juventude!”.

Não penso assim mas respeito e compreendo quem pensa. De minha parte acredito que o poder do Evangelho se evidencia quando todas as normas e regras falham. Quando a grade está aberta e o preso responde “não te faças nenhum mal que todos estamos aqui”. Quando o taxista encontra a pasta com um milhão e vai devolvê-la. Quando ouvimos o barulho da água no quintal e não vamos olhar por cima do muro se há uma mulher banhando-se. Quando descobrimos um podre de alguém e, em vez de expô-lo, retemos. Regras não têm nenhum poder contra a sensualidade. Isso é bíblico. Porque é mais fácil regular o mal comportamento do que gerar bons comportamentos. Toda regra e lei tem caráter punitivo.

A Igreja tem competência para julgar as exterioridades sim. É um caminho bom e correto. Mas o caminho melhor é aquele da grade aberta, da ausência do vigia, do não faço porque não quero (não só porque é pecado), da intenção santa no coração, da árvore boa que produz bons frutos, da fonte que produz águas doces e não amargas. Pode isso ser apenas bonito em teoria e duro na prática, mas é o que devemos almejar. Se queremos cristãos maduros essa é a linha a seguir, no meu modo de ver.

4- As Escrituras ensinam que o sexo entre o marido e sua esposa é a única forma de relações sexuais que Deus aprova (Hebreus 13:4). O texto bíblico ensina que  o leito conjugal, deve ser conservado puro e sem mácula e que o Senhor julgará os imorais e os adúlteros."

Venerado seja entre todos o matrimônio e o leito sem mácula; porém, aos que se dão à prostituição, e aos adúlteros, Deus os julgará. Hebreus 13:4

Outra vez um versículo é usado aqui para imputar falha ao pensamento de Caio. Mas o que ele disse em seu vídeo foi justamente isso: “Deus julgará”. Caio se disse impossibilitado de julgar sumaria e taxativamente o pecado daquele jovem com base apenas no que ele informou no e-mail. “Eu não sou Deus”. Mas não deixa solta a questão. O jovem é admoestado solenemente, chamado à responsabilidade. “Não vou dizer que é amor, para não ser leviano...”,  “Se é amor, só vocês podem saber...”. “O tempo vai provar..”, “Nunca a defraude...”, “..nunca faça isso com mulher nenhuma...”. 

Quanto a relativização do casamento comum aos dias de hoje reproduzo parte de um artigo publicado pelo meu amigo Augustus Nicodemus que fez alguns comentários extremamente interessantes sobre o casamento os quais concordo plenamente e compartilho abaixo:

1) Relações sexuais diante de Deus não é bem o conceito de casamento que encontramos na Bíblia. O quadro que temos é muito mais complexo. Envolve responsabilidade pública e legal, pois tinha a ver com a herança e a proteção da esposa e os direitos dos filhos. Quando não há um compromisso oficial, mas apenas um viver juntos, como se pode falar em adultério, divórcio, herança de filhos, propriedade de terras, sustento para a desamparada, etc.? 

Bem, a lei civil está se desenvolvendo a fim de salvaguardar essas garantias no caso da união estável de sorte a, nesses aspectos, equipará-la ao casamento tradicional. Já há uma certa caminhada nessa direção e em poucos anos, pode estar certo, amigo leitor, não haverá qualquer diferença. O casamento civil socialmente aceito tende a migrar para o modelo menos formal e passar cada vez mais da esfera dos pais para a dos filhos. É um movimento natural e humano, sujeito ao pecado, como o é o casamento tradicional e tudo mais que diz respeito à nossa humanidade. Num ou noutro sistema o que fará a diferença é o amor ou a falta dele, o bom ou o mal caráter, as verdadeiras intenções e interesses, coisas que são do império da consciência, sem outra garantia que aquela assegurada ou pela graça comum ou pela graça especial (teologicamente falando).  

2) Israel era uma teocracia, isto é, Estado e Igreja estavam juntos. As festas de casamento representavam a legalização “civil” da união. Hoje, nas modernas democracias, o estado é laico, e não se precisa da cerimônia religiosa, e sim a legalização pelo poder público. Igreja não casa, pastor não casa, padre não casa. Quem casa é o juiz, representando o Estado. A Igreja faz um culto e invoca a bênção de Deus sobre o casal. No chamado “casamento religioso com efeito civil,” o pastor está agindo como se fosse o juiz, tudo acertado antes no cartório, e ratificado depois, senão perde a validade.

Ok., se a questão é a legalização pelo poder público, Caio tem razão ao relativizar os elementos culturais validadores do casamento. Ou não? Se, como diz o Dr. Nicodemus, “Igreja não casa, pastor não casa, padre não casa, quem casa é o juiz”, então esse mesmo “juiz” (lei civil) que casa no cartório agora passou a validar como casamento, para fins de direitos, a união estável. Se a validação pelo Estado é o critério para a Igreja, para o pastor ou para o padre (como sugere o Rev. Nicodemus), a consequência lógica é elementar. Eu discordo. Acho que quem casa de fato e de verdade é sim o pastor ou padre ou o religioso quem quer que seja, pois pelo menos está obedecendo a um princípio divino superior, seja ele cristão ou pagão (vide C.S.Lewis). O que o Estado faz é regular direitos, deveres e proteger inocentes. Pra mim o casamento verdadeiro é o religioso. Se a igreja se colocou a reboque do cartório, por uma questão histórica e circunstancial, no decurso do desenvolvimento do estado laico, obriga-se então a ficar também a reboque do juiz que decreta a união civil. De minha parte defendo que não deva ficar a reboque de nenhum deles. Creio que é chegado o tempo de a igreja recuperar sua autonomia religiosa em relação ao casamento entre um homem e uma mulher.

3) O “casamento” de Adão e Eva não pode ser tomado como padrão para a humanidade. Eles nem tinha umbigo! Não havia ainda estado, igreja, sociedade, pessoas. O que aprendemos com o episódio é que a vontade de Deus que a humanidade se organize em famílias, compostas de um homem e de uma mulher, e que vivam unidos para sempre, criem seus filhos e dominem a terra. A legalização e a oficialização disto é uma decorrência natural e lógica quando o pecado entrou no mundo e apareceram outras mulheres e outros homens, a luta pelas terras e propriedades, o egoísmo do homem que desampara a mulher depois de abusar dela, e assim por diante. Por este motivo encontramos leis sobre divórcio, leis sobre herança de filhos, leis sobre os filhos de uma mulher que não é a esposa legítima, etc. etc.

Perfeito, é da vontade de Deus que a humanidade se organize em famílias, compostas de um homem e de uma mulher, e que vivam unidos para sempre, criem seus filhos e dominem a terra. Depois da queda restou regular isso de alguma forma, num mundo pecador. Atualmente o estado laico se encarregou dessa atribuição pela própria natureza das coisas. O que fica para a Igreja é o princípio de origem, a vontade de Deus e essa continua a ser do domínio da consciência, das intenções, qualquer que seja a fórmula validadora. E é nessa direção que aponta a fala de Caio, pelo que entendi.

4) É evidente que as festas de casamento, com véu e grinalda, etc. são coisas absolutamente culturais e que mudam de acordo com os tempos e épocas. O que vale é que aquele momento em que os dois, diante do representante do governo (pode ser o pastor fazendo o casamento com efeito civil), prometem fidelidade, suporte, apoio e amor mútuos até que a morte os separe e assinam o contrato, que haverá de garantir os direitos deles e dos filhos, para o bem da sociedade e da família. Era isto, guardadas as devidas proporções, que acontecia nos tempos bíblicos em Israel, com os patriarcas fazendo as vezes, e depois os sacerdotes, juízes, anciãos, etc.

Então, “o que vale é aquele momento dos dois, diante do representante do governo”? Fala sério! O que vale, Reverendo, o que vale de verdade é a consciência do cidadão pecador, cristão ou não, as verdadeiras intenções e interesses. Se for cristão, maior ainda a responsabilidade e o compromisso. No juiz ou no pastor ou no padre ou seja diante de quem represente por mandato a lei civil, nada garantirá a verdade de um casamento entre um homem e uma mulher senão as garantias espirituais ou morais que estão no império inviolável da consciência, quaisquer que sejam os validadores civis, legais ou culturais, união estável incluída.

5) União civil não é casamento, mas um mecanismo para garantir os direitos dos que vivem juntos a um tempo, como se casados fossem.  

Isso é, a meu ver, apenas um jogo de semântica para despistar o real ponto em questão. Muitos casais em união estável há anos, com famílias criadas e bem estruturadas estão aí. Alguns aproveitam as campanhas do judiciário (casamentos comunitários) para “legalizarem” seus casamentos, pois ainda resta a noção da superioridade do casamento tradicional. Mas isso é apenas uma memória cultural. Os que buscam essa via estão dizendo a si próprios e ao mundo que seus casamentos foram e são “de verdade”, e se para isso for ainda necessário o papel do cartório como “prova legal”, que seja! No entanto a verdade do casamento independe dessa prova, tanto que muitos permanecem na união estável e vivem seus casamentos fiéis até a morte. A fidelidade e o amor jamais poderão ser garantidos por um contrato. O contrato é apenas um regulador civil de direitos e obrigações. E a lei evoluiu para dispensar sua formalidade e considerar os fatos para fins da proteção e regulação desses direitos. Se o Estado, pela lei civil, humana, limitada e falha, resolve acolher a decisão de foro íntimo, priorizando a vontade de um casal que supostamente se ama deveria, na minha opinião, a Igreja valorizar ainda mais esse foro, para onde convergem os apelos da Graça de Jesus pela resposta voluntária dos conversos transformados por esta mesma Graça.

Concluo essa breve reflexão lembrando de Paulo que ao escrever a Timóteo disse:  

 "... Ora, o Espírito afirma expressamente que, nos últimos tempos, alguns apostatarão da fé, por obedecerem a espíritos enganadores e a ensinos de demônios, pela hipocrisia dos que falam mentiras e que têm cauterizada a própria consciência, que proíbem o casamento..." (1Tim 4.1-3).  

O versículo foi pinçado e truncado. Será que haveria aqui uma sutil insinuação de que o Pr. Caio estaria associado à categoria dos apóstatas, dos que obedecem a demônios, dos hipócritas, dos mentirosos, dos que têm a consciência cauterizada e dos que proíbem o casamento?  Quero crer que não, mas, sinceramente, sou tentado a achar que sim.   

Que Deus nos livre deste relativismo que tanto mal tem feito a igreja brasileira. 

Que Deus nos livre de julgamentos dessa natureza.

Pense nisso! 

Pense nisso!

Renato Vargens 

Faustino Junior.




terça-feira, 3 de setembro de 2013

Anotações no III Congresso de Família da IPSL – Ago-Set/2013 [3]

Pregação do Rev. Antônio Florêncio Neto (AFA Neto)

Pastor na Igreja Presbiteriana da Aliança – Salvador – BA

Parte II – Sábado, 31/08/2013 – Noite. 

Inicialmente o Pastor AFA Neto demarcou o terreno com duas novas citações interessantes:
1-“O maior sinal de que alguma coisa está errada com a família é quando ela sai de casa aos domingos para comer comida caseira”. (Mário Sérgio Cortella)
2-“Nós somos a última geração de filhos que obedeceram a seus pais e a primeira de pais que obedecem seus filhos”. (Anônimo)

Continuando a desenvolver o tema – Nove características do presente século que influenciam negativamente a Família:

Característica 5:  A Controle-remotização da Vida

Essa característica fala da dificuldade da família moderna em lidar abençoadoramente com a tecnologia.  Quando a TV iniciou há 6 décadas a mudança de canais era feita por um botão chamado seletor de canais. Esse botão era girado com força e dava um estalo a cada canal selecionado. Só haviam 2 ou três canais disponíveis. O sujeito tinha que levantar-se do sofá e ir até à TV (em preto-e-branco) e mudar o canal. Muitas vezes, por preguiça, preferia ficar vendo o mesmo programa para não ter que levantar-se. Comodismo.  Hoje as facilidades da tecnologia estão salvando tempo apenas para consumi-lo no uso de cada vez mais tecnologia. O que a tecnologia proporciona em ganhos de tempo e esforços nos toma em demandas por mais tempo e mais esforços.  A multiplicidade de comodidades e ofertas do mundo tecnológico (comida, roupa, entretenimento, comunicação, acesso e tudo mais) gerou uma condição que favorece o enfado e gera impaciência, indecisão, insaciedade. Uma busca nunca satisfeita num mar quase ilimitado de opções gera insatisfação, impaciência e tédio. A sensação de que sua escolha pode não ter sido a melhor, mas sim aquela que foi possível diante do mar de opções tão gigantesco que não é prático examinar, pesquisar até o fim. Essa situação estressa a mente, altera os critérios de percepção de valor, exacerba o exótico, o original e causa enfado. Daí emergem pessoas tensas, impacientes, com dificuldades de investir em relações pessoais significativas.   Torna-se necessário encontrar um ponto de equilíbrio no uso da tecnologia e no seu direcionamento para o que realmente importa, o sentido da vida e das relações interpessoais vívidas e não somente virtuais.

Característica 6: Vale-presentização da Vida

Fala da falta de convivência e conhecimento mútuo, de amizades superficiais. Por não desenvolver relacionamentos mais aprofundados já não conhecemos bem nossos amigos. Não sabemos nem escolher mais um presente que represente gostos e afinidades.  Seria este o ápice da impessoalidade? Cintando Jean Paul Sartre, “O inferno são os outros”.  
Família só se constrói no convívio e convívio se faz com atenção, afeição e coragem para superar todas as dificuldades que isso envolve. É preciso conviver. Convida, apesar de ser difícil. Não há família sem convívio.

Característica 7: Celularização da Vida

Mais uma vez, a tecnologia e o desafio de lidar com ela. O ser que andava tornou-se um ser móbile.  A tecnologia que foi criada para aproximar pessoas, também as afasta. O contato remoto sacrifica o contato próximo. A tecnologia nos tornou presentes-ausentes. Estar ali já não significa mais estar ali. Podemos estar muito longe dali, estando ali. Pais e filhos podem estar ali mas bem distantes. Pastores disputam sem qualquer chance a atenção contra celulares e tablets nos cultos. Professores nas escolas e faculdades também. Empregadores e empregados nas empresas.  Por uma questão de timing os pais não desenvolveram a mesma familiaridade com a tecnologia de comunicação móbile. Mais barreiras. A capacidade de interagir com o círculo das amizades dos filhos reduziu-se drasticamente. Perde-se o controle mínimo necessário à proteção.  A exposição a conteúdos impróprios para as faixas etárias saiu completamente do controle dos pais ou de quem quer que seja.  O risco de assédio moral e sexual elevou-se ao extremo.  O peso dos princípios e valores é relativizado pela validação de opiniões nas mídias sociais. E assim, o que foi criado para unir, pode também separar os seres humanos no seu núcleo mais importante, a família.

Característica 8: Despreterização da Vida

Processo de eliminação e desprezo pela história, pelo passado, pelo lento e gradual processo de construção de valores, de boas tradições, de bons costumes e de respeitos. Envolve o desprezo pelas raízes, pela experiência dos mais velhos, pelas histórias pessoais, pelas lições de vida, pelos exemplos, pelos resultados das perdas e ganhos daqueles que já viveram mais.  Fala da ilusão de construir tudo do zero, da pretensão de derrubar marcos e destruir fundamentos. Desprezo pela realidade de que não há história no futuro, pois toda história é passado e, portanto, não existe futuro sem passado.  No campo moral, conversão não melhora o caráter de ninguém. Conversão transforma vidas. Quem melhora é a educação. Caráter se constrói na família. A família tem que perpetuar valores.

(Comentário off-line do anotador do estudo: Ousadia, coragem para fazer diferente, pensar fora da caixa, imaginar novas soluções, quebrar paradigmas, inovar, alterar costumes, tradições, etc., tudo isso tem grande valor e é uma força vital da juventude sem a qual o mundo não teria tido tanto desenvolvimento. Contudo, concordando com o pregador, isso não implica no desprezo e na destituição do passado, pois o que hoje é considerado ultrapassado provavelmente foi revolucionário no seu tempo. E assim caminha a humanidade, como canta Lulu Santos).

 
Característica 9 – Desfuturização da Vida

A Evolução chega ao Restart.  E isso é desesperador!
(slide muito engraçado, não revisado, colocado pelo filho adolescente do pregador, hehe...)

Carpe Diem.  

(Carpe diem é um fragmento em latim de um poema de Horácio, popularmente traduzida para colha o dia ou aproveite o momento. Uma justificativa para o prazer imediato, sem medo do futuro – pesquisado na Wikipedia).

Essa característica fala de desesperança, de desprezo pelo futuro. O que importa é o hoje, o presente.  Implica desprezo pela esperança cristã. Falta de pregação escatológica. Receio de falar de céu.  Tem versão pós-pentecostal: eu quero minha bênção é agora.  Na manifestação prática mais comum observa-se na criação dos filhos: o propósito maior é cria-los para o sucesso secular, para a conquista de seu lugar ao sol, de suas possibilidades numa sociedade de consumo.  Contrasta com o antigo anseio comum dos pais cristãos em geral para seus filhos: temor a Deus, saúde e caráter.  Atualmente a ideia de peregrinos, de estrangeiros e a esperança da glória praticamente remete-se à teologia. Deixou o cotidiano cristão.

(Comentário do anotador:  Há um dito popular que cola bem aqui: “O que se leva dessa vida é a vida que se leva”. Na versão bíblica vê-se a mesma coisa expressa nas palavras de Paulo ao refutar a descrença na ressurreição: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos que amanhã morreremos”)


E com isso o pastor encerra a sua mensagem e conclama a igreja a lutar contra essas 9 influências que minam o poder e a importância prática dos valores cristãos no mundo moderno.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Anotações sobre as palestras do congresso de família da IPSL – 03/08 a 01/09/2913 - Parte II

Sábado, 31/08/2013 – TARDE – encontro com os homens (continuação)
Rev. Erasmo Carlos - Pastor da Igreja Presbiteriana Renovada do Maiobão-S.Luis-MA

Tema: Como lidar com os conflitos familiares

Pr. Erasmo Carlos:
·         Resumindo, tanto no modelo bíblico como fora dele, cada família precisa enfrentar o caminho da superação de sua condição humana.
·         A maldição do nosso tempo é a superficialidade (citação anônima).
·         Cada um de nós tem seus pontos fracos, seus pés-de-barro. Davi tinha seu pé-de-barro nas mulheres. Era francamente mulherengo.  Isso e os interesses e preocupações do trono prejudicaram sua atenção à família e, como resultado, a omissão e o silêncio em torno de acontecimentos crucias, como o incesto de Amnon e a vingança de Absalão.
·         Qual é o seu pé-de-barro?
·         Em 2 Sm 18:33 Davi chora e geme pela morte de seu filho Absalão. Tarde demais. (Remorso?)

Pr. Erasmo pergunta ao auditório: Quais seriam os elementos de conflito nessa geração com respeito à família?  Vieram três respostas:

1.       Comunicação. A falta de comunicação pessoal e íntima entre pais e filhos está na raiz dos problemas familiares.
·         Pb. Emanoel Claudino comenta: O uso dos recursos móbiles (celulares, tablets e pads) são de difícil controle, tecnologicamente mais difíceis de filtragem. Não se pode proibir. Só nos resta o diálogo.
·         Dc. Vale, na mesma direção: os pais podem usar as mesmas ferramentas e recursos para comunicar.
2.       Falta de limites: “É proibido proibir”.
3.       Tempo: A qualidade  do tempo é um elemento de conflito.
·         Rodrigo (Ig. Anjo da Guarda): A pressão sobre o tempo é sorrateiramente imposta pela moderna organização do trabalho e da estrutura urbana em que vivemos.

Pr. Erasmo: a casa sobre a rocha ou sobre a areia: o critério é a prática da palavra ouvida. O desafio é ser bom de prática mais do que de discurso.

Faustino Jr:  Dos três apontados aqui, acredito que a falta de limites (ou melhor, o desafio de impor limites) é de fato um problema moderno. Comunicação e Tempo são recursos. O problema moderno com eles é que aumentou a dificuldade de administra-los. A  comunicação ganhou uma multiformidade de meios e elevado poder de alcance. O tempo, por sua vez, continua o mesmo: permanecem as 24 horas por dia, renovadas a cada dia. (Cada dia, à meia noite, recebemos um pacote de 24 horas novinhas em folha, que nunca foram usadas). Mas são apenas 24 horas, e a demanda sobre elas aumentou estupidamente.

Pb. Abderval:  Realmente o mundo mudou e não vai retroceder. Mas importa viver nessa mudança mantendo os princípios cristãos. Estamos vivendo bem no meio desse imenso processo de mudança. Não sabemos bem ao certo em que isso vai dar. Estamos numa fase de transição histórica. Isso demora e não se mostra com clareza durante o processo. Regras mudam. As regras da relação familiar também vão mudar. Já estão mudando. Porém os princípios não devem mudar. Os princípios cristãos não mudam. Como manter os princípios cristãos em meio à essas novas regras que se impõem à família?

Pr. Erasmo relata o dia em que saiu com seu filho adolescente para uma conversa franca, não apenas uma conversa, mas um dia de convívio, somente os dois, na busca de reconstruir um ponto de encontro e de confiança. Diz que isso mudou o curso da relação entre eles.  Diz que muitas vezes os filhos, diante da situação geral de degradação dos valores, oprimem seus pais com argumentos cínicos, que apelam para o mal menor: por exemplo, se um pai reclama de seu filho por namorar uma menina diferente a cada semana, ele responde: “pelo menos eu gosto de mulher”.

Faustino Jr. lembra que esse argumento é semelhante ao usado por pedintes jovens e com saúde, que, quando confrontados com o trabalho, respondem: “pelo menos eu não estou roubando”.

Pr. Erasmo lembra o salmista que diz: “Se o Senhor não edificar a casa, em vão trabalham os que a edificam”. “Nós devemos ser diligentes, mas essa diligência não dispensa nossa fé naquele que realmente é o edificador da família.  O sentimento que nós temos é de impotência diante da amplitude e da rapidez das mudanças nos padrões tradicionais da família e esse sentimento de impotência nos remete diretamente à Graça de Deus”.

Faustino Jr. diz que, em sua opinião, essa foi uma das afirmações mais importantes do dia.  Reconhecer esse sentimento de impotência que nos remete à graça é de fundamental importância. Talvez, em certos pontos, o mundo esteja fazendo uma evangelização de-trás-pra-frente à igreja, lembrando-nos que também somos pecadores, tragicamente humanos, iguais a todo mundo. Talvez tenhamos esquecido disso, ou menosprezado. (Talvez, lá no fundo, nos considerássemos em melhor situação diante de Deus. Nós vamos à igreja estudar a bíblia todos os domingos, louvamos a Deus e oramos juntos,  enquanto os demais vão pra a praia, shopping, cinema, bares, restaurantes, se divertindo). Esse sentimento de impotência só pode nos remeter à Graça. Só a Graça nos salvará.  Como no caso do divórcio e da emancipação feminina nós cristãos aprendemos, de-fora-pra-dentro, e nos tornamos mais humanos. Quais outras questões de-fora-para-dentro estariam a nos demandar nos tempos atuais?

Pb. Johny lembra a imagem das pedras que clamam contra o que poderia caracterizar um comportamento judaizante do cristianismo (cumprimento de regras e normas de comportamento).


Fim do dia com orações.