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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Fé e Soberania de Deus III - Salmo 91




De minhas conversas no Face recupero esta. Um amigo publica a foto com os dizeres acima e argumenta, corretamente, com uma perguntinha cretina-do-bem: o que acham disso as outras pessoas que tiveram as casas destruídas?

Pois é, respondo: Nada  a ver. São promessas do VT na velha aliança. Não valem mais para os crentes hoje. Mas tem gente que acredita e se deixam explorar por igrejas manipuladoras que lhes assaltam os bolsos e lançam nas suas costas a culpa de não obterem a vitória por não terem fé suficiente. Lástima. Evangelho é outra coisa.

Mas alguém resolve comentar e retruca: “Só sei que Deus é e sempre será o mesmo, e a sua palavra não mudará”.   Essa pessoa demonstra a boa-fé que acompanha grande parte dos crentes. Fomos ensinados que a palavra de Deus não mudou e permanece a mesma. Não percebemos a armadilha que esse argumento pode encerrar quando não se usa uma boa hermenêutica (regras de interpretação) bíblica.

Respondo: “Não mudou a sua palavra, mas a sua aliança sim: Velho Testamento, Novo Testamento (Testamento = Aliança = Contrato). Vai pensando que mil cairão ao teu lado e tu não serás atingido, vai!. Esse é um texto de um salmo MESSIÂNICO e o autor está falando do MESSIAS, Jesus. Outro salmo do mesmo tipo é o 34, onde diz que "nenhum de seus ossos será quebrado". Falta de conhecimento bíblico gera crentes ingênuos que são facilmente explorados por pastores inescrupulosos.

O interlocutor replica: “Mas essa palavras bíblicas servem para refletirmos sobre o dia-a-dia.”

Respondo: “Não, amigo, não servem não. Servem apenas para pastores cretinos explorarem crentes ingênuos. Sou crente e filho de pastor. Meu pai tá com 82 anos e foi pastor toda a vida até aos 70. Ele nunca ensinou esse tipo de coisa. Falo de dentro.”

Ele:  “Eu sei que temos que nos basear no NT, mas a bíblia é muito útil em todos os pontos”.

Eu: “Certo. Muito útil quando se discerne sua aplicação. Fora disso pode ser bastante prejudicial. Pode observar o quanto essas tele igrejas usam o VT completamente fora do contexto para explorar a fé dos pobres fiéis incautos.”.

Ele: “Você tem razão nesse ponto”.

Eu:  “O VT foi escrito para mostrar como NÃO DEVE SER a nossa relação com Deus. Lá tem bênção para quem obedece e maldição e castigo para os desobedientes. E qual foi o resultado? Tragédia para o povo judeu! Quem quiser receber bênção pela obediência deve estar preparado para receber e ACEITAR o castigo pela desobediência. No VT aprendemos que Deus nos trata de acordo com o que somos. No NT Jesus nos recebe APESAR do que somos. "Todos pecaram e destituídos estão da Glória de Deus", mas, "Pela Graça sois salvos, mediante a fé, e isso não vem de vós, é DOM de DEUS; não vem de boas obras, para que ninguém bata no peito e diga: eu mereço". Simples assim!”.

Ele: “Temos que manter uma amizade com Deus sincera”.

Eu: “Evangelho não é seguro-saúde, nem salvo-conduto, nem bolsa-emprego, nem garantia de nada. Ninguém tem privilégio de "folha corrida" diante de Deus. Todos somos igualmente solidários na Queda e na condição humana. Isso é o que os teólogos chamam de "solidariedade da raça". Pastor Estêvam Ângelo (maior liderança da Assembleia de Deus no Maranhão, falecido em 1996 aos 73 anos) morreu estraçalhado num acidente de carro numa de suas viagens evangelísticas. Seu corpo teve que ser catado ao longo da pista. Seu filho, no funeral, disse: "Papai viveu como queria e morreu como não queria". O Bispo Robinson Cavalcante, grande pensador e pastor reconhecido em todo o país e América Latina, foi esfaqueado há três meses, junto com a esposa, dentro de casa, quando voltou do culto de domingo, pelo próprio filho adotivo. Onde estava Deus e essa "promessa" de que "tu não serás atingido?". Meu amigo, ninguém manda em DEUS, tá? Sem essa de "confiado na tua palavra eu determino". Deus é soberano e seus propósitos são insondáveis. Há uma hierarquia de verdades na Bíblia. Presta atenção!”


Está na base da argumentação dos ateístas há séculos: Se Deus é bom, por que não impede a maldade no mundo?  Crentes ingênuos tentam esconder o fato de que Deus não responde, como quem tenta esconder o sol com uma peneira. A verdade é essa: Deus não responde a todas as nossas perguntas, não atende a todos os nossos pedidos nem intervém contra toda a maldade no mundo. E isso tem pouco a ver com fé. Não quero ainda responder segundo me parece o porque dessa verdade que não pode ser negada. Deus tem seus propósitos. Ele deu vislumbres deles na Bíblia. E, sim, Ele está no controle. E um dia, todos iremos compreender.  Por enquanto, mistério!  A fé é um mistério!

P.S.: A foto acima é uma montagem grosseira.




terça-feira, 26 de junho de 2012

Fé e Soberania de Deus II - Navio Negreiro



Emana do peito do poeta e salta como que sem pela boca. Transcende e sobrepuja os tristes séculos desde as vésperas da varonil-proclamação. Esta a da República brasileira, est´outra a da ânsia humana por respostas.  Sim, dos átrios merencórios, dos pulmonares brônquios, engajados todos os mais periféricos alvéolos, chamados à causa de um grito. É de Castro Alves, em  Vozes d'África, publicado em Abril de 1869, esse que ecoa e ainda ecoará sabe-se lá até quando:  “Deus, ó Deus, onde estás que não respondes?”. É a mão e a pena que capturam no ar e imortalizam no papel para que não se perca, para que congele, paralise e se mantenha, para que nós também o ecoemos hoje e que outros o façam amanhã.
 
Eis a imortal candente estrofe do inflamado baiano-poeta coração:

Deus! ó Deus! onde estás que não respondes? 
Em que mundo, em qu'estrela tu t'escondes 
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito, 
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

O poema é longo e plangente, e vai, descrevendo a lancinante condição do africano continente, de seu povo infeliz, escravizado.  O poeta como que re-clama o que clamara um ano antes, quando em junho de 1868, irmana seu próprio coração à negra dor dos desgrenhados nos porões escuros a cruzar mares em rumo de desgraças bem maiores, Navio Negreiro:

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!

Por que Deus não responde a nossas orações? Ou, por que, quando responde, responde muito poucas delas, quase nada?  Qual a resposta a essa inquietante pergunta que não quer calar no peito de um cristão decente, de um poeta angustiado, de outro qualquer talvez nem mesmo crente? Para tentar responde-la propus num post anterior outra pergunta: Se Deus respondesse a todas as nossas orações o que aconteceria? Para melhor raciocinar, retire-se desse “todas” os nossos eventuais caprichos, leviandades e mesquinharias. Fiquemos com aquelas que nossa cartesiana lógica impõe, nada menos do que necessárias, nada mais do que justas. Se Deus respondesse a todas as nossas orações onde pedimos cura, livramento e libertação e justiça? Encontrar alguma resposta a essa outra indagação pode lançar um pouco de luz sobre a primeira. Quer tentar?

segunda-feira, 25 de junho de 2012

Fé e dúvida




Uma das coisas que aprendi durante minha vida cristã foi a perder o medo da dúvida. Antigamente as dúvidas rondavam, espreitando e ameaçando a minha fé. Parecia a mim e a tantos com os quais eu convivia que ter dúvidas sobre a mensagem cristã, Jesus, Deus e tudo mais seria, tipo assim, um grande pecado. Ainda bem que isso passou. Com o tempo, o estudo bíblico, as experiências e a experiência fui percebendo a importância da dúvida. Ela é o campo onde brota a plantinha da fé.

Vejo essa imagem na parábola do semeador (onde as sementes da fé são lançadas em diversos tipos de terrenos) e também na comparação que Jesus fez da fé como um grão de mostarda.  Encontrei ainda um fato mui precioso no ensino paulino em sua carta aos Romanos: “Esperança que se vê não é esperança, por que o que alguém vê, como o espera? Mas se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos”.  Esse ensino corrobora o de Cristo quando falou aos seus discípulos, “bem-aventurados os que não viram e creram”. E o apóstolo Paulo volta a referir-se ao ponto quando diz aos Coríntios “Hoje vemos como através de um vidro embaçado, então veremos face-a-face”.  

De que fala esse  ensino? Simples: quem vê não tem fé, por que viu. Portanto, fé requer a dúvida. Ou seja, sem dúvida, não existe fé e sim certeza. É, pois, por meio dessa fé que não vê que devemos expressar a nossa convicção de certeza, como pontua o autor da carta aos Hebreus: “Fé é a certeza das coisas que se esperam e a convicção de fatos que se não veem” – na lógica humana, um contrassenso.   Passei então a respeitar e valorizar as minhas dúvidas pois elas são o terreno onde brota a minha fé. A partir dessa compreensão a dúvida passou a ser a aliada da minha fé. 

Como fez Jó, personagem bíblico símbolo de provação no sofrimento, ao expressar sua esperança, em meio a profundo conflito e tragédia pessoal, afirmou: “Eu sei que meu Redentor vive e que por fim se levantará sobre a terra”.  Esse “eu sei” que não se sabe é simplesmente fé e só se afirma contra a evidência. Assim fortaleço a minha fé e a realço com o contraponto da dúvida, como fecha o ensino apostólico: “Olhando firmemente para Jesus, o autor e consumador da nossa fé”.  Melhor assim, não?





Fé e Soberania de Deus - I - Hierarquia de verdades






Muito tenho pensado sobre a fé. Leio nos livros de teologia a diferença ente a fé comum e a fé eficaz. A primeira nos remete à prática diária da nossa confiança de que nossas petições serão atendidas.  A segunda nos liga à uma esperança de redenção final e de uma realidade nova além-vida, focada em Jesus.  A Bíblia às vezes parece contradizer-se. Jesus disse que que quem tiver fé como um grão de mostarda poderá transportar montes. Há outras afirmações dessa natureza que nos deixam muito confiantes. As tele igrejas evangélicas pós-pentecostais são hábeis em manipular seus adeptos com esses textos. Porém, o que vemos na prática? Deus não responde. Ou melhor, responde sim, mas nem sempre. Aliás, muito mais “nem sempre” do que gostaríamos. Seria apenas falta de fé? Os crentes ficam confusos, frustrados. Ainda mais quando veem nessas tele igrejas “depoimentos” um atrás do outro “demonstrando” a eficácia da fé pessoal aplicada ao ponto de “determinar” o que Deus “tem” de fazer.

O que os crentes precisam saber é que há uma hierarquia de verdades na Bíblia. No assunto em questão, a fé como prática pessoal é claramente ensinada como elemento da oração. Jesus nos manda orar, levar a Deus nossas petições, crendo que serão atendidas, “e assim será”. Porém há outra verdade superior a essa: Deus é soberano e Ele tem seus propósitos, que são insondáveis.

O que aconteceria se Deus respondesse a todas as nossas petições?